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Guia · 05/11/2026 · pela

A regra 50-30-20: como dividir o salário em Portugal

Como repartir o salário líquido entre contas, gostos e poupança, com exemplos reais para 970 €, 1436 € e um casal, e o que fazer quando a regra não dá.

A regra 50-30-20 é a forma mais simples de dividir o salário sem andar a apontar cada café. Em vez de dezenas de categorias, são três bolsos. Só que foi pensada para os Estados Unidos, e em Portugal, com as casas a pesarem o que pesam, poucas famílias conseguem cumpri-la à letra. Este guia explica a regra, mostra as contas com valores portugueses e diz o que fazer quando os números não batem certo.

O que diz a regra

Pega no que recebe na conta todos os meses, o líquido, e divide-o assim:

  • 50% para as necessidades: o que tem mesmo de pagar para viver e trabalhar.
  • 30% para os gostos: o que torna a vida melhor mas pode ser cortado.
  • 20% para o futuro: poupança, fundo de emergência e pagamento de dívidas além da prestação mínima.

A ideia não é acertar nos três números ao cêntimo. É ter uma referência para perceber, de relance, se o problema do mês está nas contas fixas, nos extras ou na falta de poupança.

O que entra em cada bolso

É aqui que a maioria das pessoas se engana. Em Portugal, uma divisão honesta fica assim:

  • Necessidades: renda ou prestação da casa, condomínio, água, luz, gás, internet e telemóvel base, supermercado, transportes ou combustível para ir trabalhar, creche e escola, seguros obrigatórios, medicamentos, e a parte mensal do IMI, do IUC e do seguro do carro (divididos por 12).
  • Gostos: restaurantes e take-away, roupa além do necessário, streaming, ginásio, cabeleireiro, viagens, prendas, o telemóvel novo.
  • Futuro: o que vai para a conta-poupança, o PPR, os certificados de aforro, e o que paga a mais nas dívidas para as fechar mais depressa.

Duas armadilhas comuns: o supermercado não é todo necessidade, porque lá dentro vão também os miminhos; e o carro, quando é preciso para trabalhar, é necessidade, mas um carro maior do que o preciso já é um gosto.

Exemplo 1 · salário mínimo previsto para 2027

Com 970 € brutos (valor previsto pelo Governo, a fixar por decreto-lei), o líquido ronda os 863 € (em 2027, o salário mínimo não deverá pagar IRS). Pela regra:

  • Necessidades: 432 €
  • Gostos: 259 €
  • Futuro: 172 €

Com 432 € para casa, comida e transportes, as contas ficam muito apertadas na maior parte dos casos. A regra foi pensada para rendimentos mais altos e serve mal os rendimentos baixos. Mais abaixo há uma versão que serve.

Exemplo 2 · salário médio

A remuneração bruta mensal média regular em Portugal, sem os subsídios de férias e de Natal, foi de 1436 € no segundo trimestre de 2026, segundo o INE. Para quem é solteiro, sem filhos, isso dá cerca de 1125 € na conta. Pela regra:

  • Necessidades: 563 €
  • Gostos: 338 €
  • Futuro: 225 €

Aqui já é possível, mas exige que a casa fique por volta dos 300 € a 350 €, contando com as contas. Em Lisboa ou no Porto, a sós, é difícil; partilhando casa ou fora das áreas metropolitanas, é mais fácil.

Exemplo 3 · casal com dois salários médios e dois filhos

Dois salários de 1436 €, num casal com dois filhos, dão cerca de 2336 € por mês em casa. Pela regra:

  • Necessidades: 1168 €
  • Gostos: 701 €
  • Futuro: 467 €

Com prestação ou renda, creche e um carro, os 1168 € esgotam-se depressa. É por isso que, em famílias com filhos pequenos, a repartição realista costuma ser 60-20-20 durante alguns anos, até a creche sair das contas.

Os subsídios mudam a conta

Em Portugal recebem-se catorze meses, não doze. Os subsídios de férias e de Natal são a parte mais fácil de poupar, porque o mês corre na mesma sem eles.

Uma forma simples: aplique a regra aos doze meses normais e trate os dois subsídios à parte, com um destino decidido antes de chegarem. Por exemplo, metade para as despesas grandes e irregulares do ano (IMI, IUC, seguros, material escolar) e metade para a poupança. Se os dois subsídios forem só para poupança, isso sozinho já representa cerca de 14% do rendimento anual.

Veja também como fazer o orçamento familiar contando com os subsídios e quando é pago o subsídio de Natal.

Quando a regra não dá

Se as necessidades passam dos 50%, há três versões que funcionam melhor:

  • 60-20-20: para quem tem a casa pesada ou filhos pequenos. Mantém a poupança nos 20%, que é o que interessa.
  • 70-20-10: para rendimentos baixos ou no primeiro ano de uma casa nova. Dez por cento parece pouco, mas 80 € por mês são quase mil euros por ano.
  • 80-0-20 durante uns meses: para quem está a fechar dívidas caras. Corta-se o bolso dos gostos quase todo, mas só por um período com data marcada, senão não se aguenta.

O número que nunca deve ficar a zero é o do futuro. Mesmo 25 € por mês mantêm o hábito, e o hábito é o que torna possível poupar mais quando o rendimento subir.

Como começar em vinte minutos

  1. Saiba quanto entra: use a calculadora de salário líquido para ter o valor certo, em vez do bruto do contrato.
  2. Tire três meses de extrato e marque cada movimento com N, G ou F.
  3. Some e divida: veja em que percentagens está hoje. É este número, e não o ideal, que diz onde mexer.
  4. Escolha a versão que se aproxima do seu caso e defina um limite para o bolso dos gostos.
  5. Separe a poupança no dia do ordenado, por transferência automática. O que fica na conta à ordem gasta-se.

Perguntas rápidas

Conta-se sobre o bruto ou o líquido? Sobre o líquido, o que entra mesmo na conta.

E as dívidas? A prestação mínima do crédito da casa ou do carro é necessidade. O que pagar a mais para as fechar mais cedo conta como futuro.

E quem é a recibos verdes? Use a média dos últimos seis meses, já sem o que separa para impostos e Segurança Social. Esse dinheiro nunca foi seu.

O Orçamento Familiar faz esta divisão sozinho: escreve o que recebe e o que gasta, e a folha mostra as percentagens de cada bolso, mês a mês, com os subsídios nos meses certos. Se quiser só experimentar, o Orçamento do Mês é grátis. Para a parte do futuro, veja o Desafio de Poupança; para as dívidas, o Sair das Dívidas compara a bola de neve com a avalanche.

Valores líquidos calculados com as tabelas de retenção na fonte de 2026 para o Continente, para trabalhadores por conta de outrem; no exemplo do salário mínimo de 2027, sem retenção de IRS, porque o mínimo de existência proposto o deixa isento. A remuneração bruta mensal média regular (sem subsídios) é do INE, segundo trimestre de 2026. Informação geral, não é aconselhamento financeiro.

Produtos para pôr isto em prática

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